Entrevista

entrevista

Especialista explica níveis seguros de exposição à radiação e questiona uso da tecnologia na área industrial e de inspeção e segurança

Professor Giovane Teixeira

A discussão sobre os níveis seguros de exposição à radiação ionizante alcançou um novo patamar. Enquanto a maioria dos governos e empresários insiste em ignorar a aplicação correta da legislação que disciplina a matéria, a comunidade acadêmica se mostra preocupada com os rumos da Radiologia no Brasil.

A situação alcançou o limite do tolerável e é necessário rediscutir medidas efetivas para proteger a vida das pessoas, pois a distância  entre a teoria e a prática fica mais evidente a cada nova vítima que se noticia.

Sobre o assunto, a gente conversou com o professor Giovane Teixeira. Ele é Tecnólogo em Radiologia e Mestre em Radioproteção e Dosimetria (IRD/CNEN). Leciona nos cursos de Radiologia, Petróleo e Gás, Psicologia e Farmácia, além de desempenhar a função de consultor em radioproteção na área privada. É SPR em medicina nuclear e foi classificado em 1º lugar para tecnologista em saúde pública no último concurso para a Fiocruz. Afinal, quais são os limites seguros de exposição à radiação ionizante? Confira!

Quais exames radiológicos emitem mais radiação ionizante?

Os provenientes de equipamentos que operam no modo fluoroscopia, ou seja, que emitem radiação por longos intervalos. São equipamentos utilizados, principalmente, em procedimentos intervencionistas como a hemodinâmica e cirurgias radioguiadas.

Que células do corpo são mais sensíveis aos efeitos radioativos?

A radiossensibilidade celular está diretamente relacionada com a taxa de reprodução do grupo celular. Quanto maior a taxa de reprodução, maior a radiossensibilidade. Então as células da pele, tireóide, gônadas e cristalino estão mais suscetíveis aos efeitos biológicos das radiações ionizantes.

Que doenças a radiação ionizante pode causar no organismo humano?

Os efeitos são classificados em dois tipos: os estocásticos e os determinísticos. O primeiro ocorre em função de pequenas exposições por longos intervalos de tempo, não possuindo um limiar de dose e se manifesta, principalmente, por alterações genéticas malignas (câncer). Os efeitos determinísticos ocorrem em função de altas doses de radiação em curtos intervalos de tempo. Um indivíduo que seja exposto a uma alta dose no cristalino, por exemplo, terá catarata; um indivíduo exposto na região das gônadas poderá ficar estéril temporariamente ou permanentemente, em função da dose que recebeu. Uma irradiação de corpo inteiro ou uma contaminação, como ocorreu em Goiânia com o Césio 137, pode gerar efeitos imediatos como náuseas, vômito, diarréia, dor de cabeça e até mesmo aborto espontâneo, colapso do sistema nervoso e a morte do indivíduo.

Quais são os limites recomendados para quem trabalha exposto à radiação ionizante?

Na verdade, os limites não são recomendados, são determinados pela legislação, sendo de 50 mSv de Dose Efetiva por ano, devendo possuir uma média de 20 mSv em 5 anos, segundo a Portaria 453/98 MS, além de valores intermediários durante os meses, que traduzem níveis sujeitos à investigação e/ou intervenção laboratorial (exames citogenéticos) e notificação às autoridades reguladoras. Para outras regiões, o valor muda, como também muda a Grandeza Dosimétrica avaliada. Nas extremidades, o nível de investigação é de 150 mSv por ano ou 20 mSv de Dose Equivalente em qualquer mês e, no cristalino, 6 mSv por ano ou 1 mSv em qualquer mês, segundo a Posição Regulatória 3.01/004:2011.

Que cuidados, especificamente, os trabalhadores expostos à radiação ionizante devem tomar no seu dia-a-dia?

O trabalhador deve utilizar equipamentos de proteção apropriados e se posicionar corretamente em relação à fonte radioativa. Além disso, deve seguir as orientações do Supervisor de Radioproteção, figura obrigatória, porém não muito comum nos serviços de radiodiagnóstico convencional.

E os pacientes, que cuidados devem ter durante o exame?

O paciente, basicamente, deve estar atento às orientações (sinalizações) obrigatórias dispostas no ambiente radiológico e seguir as instruções do profissional envolvido no procedimento. Essas instruções devem ser claras, incisivas e de fácil cognição para o paciente, evitando assim erros de posicionamento, entre outros problemas.

Quais são os grupos de riscos, para quais pessoas os exames radiológicos não são recomendados?

Gostaria de deixar claro que o exame radiológico só deve ser realizado quando houver extrema necessidade. Alguns indivíduos devem evitá-los, como as gestantes e os indivíduos com problemas sanguíneos relacionados à baixa de células imunológicas, devido à alta radiossensibilidade do sistema hematopoiético.

Que cuidados as gestantes e lactantes devem observar antes de se submeter a exames radiológicos?

É de extrema importância que uma gestante seja submetida a exames que utilizam radiação ionizante apenas quando for comprovadamente necessário. Principalmente, se estiver no primeiro trimestre da gravidez, pois o feto tem maior nível de radiossensibilidade neste período. Uma vez comprovada a extrema necessidade do exame, recomenda-se que o profissional utilize as técnicas radiográficas (kV e mAs) mais otimizadas possíveis, caso essa via (radiologia), para o diagnóstico, seja fundamental e única. A lactante, pelos mesmos motivos que não pode tingir o cabelo, deve evitar exames de medicina nuclear, pois os radiofármacos administrados no paciente podem ser transmitidos como conteúdo radiativo por meio da amamentação. Dependendo da meia-vida efetiva do radioisótopo e do procedimento realizado, pode perdurar uma contagem significativa, gerando risco de efeitos biológicos para a criança.

O que o senhor acha da aplicação da tecnologia na inspeção de segurança em portos e aeroportos?

A segurança nos aeroportos é de extrema importância, tendo em vista que é um dos meios de entrada e saída de nosso país e a utilização da tecnologia é uma ferramenta indispensável, desde que seja confiável e justificado seu uso.

Nos estádios da Copa de 2014 serão utilizados equipamentos de inspeção com alta resolução de imagem, os chamados bodyscan. As pessoas podem passar tranquilamente?

Existem dois tipos desse equipamento, um deles não utiliza radiação ionizante e o outro, utiliza; as pessoas devem se informar sobre qual tipo de inspeção de segurança serão submetidas e, de acordo com seu histórico de saúde, tomar as devidas precauções.

Os escâneres de inspeção mais modernos possuem imagens de alta definição, a ponto de ser possível notar os detalhes físicos dos corpos das pessoas. Como você vê a relação entre a necessidade desse tipo de fiscalização e a invasão de privacidade que ela promove?

Infelizmente, vejo como um mal necessário devido à questão da segurança. O profissional responsável pela análise dessas imagens deve ter alto comprometimento ético e legal e deve preservar a intimidade do cidadão submetido a esse tipo de inspeção. Como ocorre em outros países, essa preservação deverá ser adicionada pelo software do sistema, que permite inserções na imagem, para proteger a identidade das pessoas. Além disso, as imagens só devem ser avaliadas em local próprio, onde somente os profissionais qualificados tenham acesso.

Para a Infraero e a ANAC, os equipamentos utilizados na inspeção de segurança não representam risco para o organismo dos Indivíduos Ocupacionalmente Expostos (IOEs) por até 44 horas semanais. Qual a sua opinião?

Como disse, depende do tipo de equipamento e caso haja radiação ionizante, sempre há risco para qualquer indivíduo, mesmo que o equipamento produza baixas taxas de dose, em função das características de ocorrência dos efeitos estocásticos. Os riscos gerados por esse tipo de equipamento mudam em função das pré-disposições genéticas de cada indivíduo, podendo se agravar em crianças, de acordo com o Dr. David Brenner, do Centro de Pesquisas Radiológicas da Universidade de Columbia.

Os operadores desses equipamentos nos aeroportos possuem uma qualificação de apenas 28 horas. Em tão pouco tempo de curso, é possível aprender a ler radiografias e assimilar noções de radioproteção?

Com certeza não. Ler radiografias e assimilar a radioproteção exigem treinamento em cadeiras paralelas à simples formação da imagem, como a física das radiações e a radiobiologia, o que não se consegue fundamentar em apenas 28 horas. Um profissional com uma formação específica em análise de imagens, que estudou sobre a física das radiações e, especificamente, os parâmetros de imagem convencional e digital seria capaz de uma interpretação mais eficiente nessas inspeções, reduzindo assim os riscos envolvidos e aumentando a efetividade do sistema.

Qual é a qualificação mínima adequada para operar equipamentos que emitem radiação ionizante?

De acordo com a legislação, essa formação mínima seria de um Técnico em Radiologia. Mas, para os equipamentos de aeroportos, acredito que esse profissional, além da Radiologia, devesse ter uma capacitação em segurança e legislação. Devido ao grau de complexidade do assunto e por se tratar da segurança nacional, talvez fosse prudente utilizar nosso profissional de nível superior, que é o Tecnólogo em Radiologia.

Como você enxerga o cenário brasileiro, nós lidamos da maneira correta com essa tecnologia?

A forma que lidamos com a tecnologia das radiações ionizantes difere bastante em função da vasta área de aplicação dela. Pode-se encontrar, num mesmo município, uma área de alta complexidade com padrão ouro de qualidade e, ao mesmo tempo, um serviço de baixa complexidade onde as normas e recomendações em radioproteção não são apresentadas, por descompromisso do prestador ou não conhecimento das autoridades.

Fonte: Laércio Tomaz/Assessoria de Imprensa CONTER